terça-feira, 1 de junho de 2010

#8

Vede que somos semelhantes,
caríssimo.
Da morte viveis
e da morte eu sobrevivo.
Crede no que digo, amigo.
Sois coveiro e eu sou poeta;
lidais com pás e eu com penas;
enterrais mortos sob terra;
enterro vivos sobre poemas.
Teço poesia; este feto da alma.
Adormeceis cadáveres; último verso.
Entrementes somos artífices
do mesmo reverso.

Agora que sabeis que somos iguais
não mais temei este holograma
abstrato que jaz levantado de seu
corpo putrefato, resultado da presteza
e eficiência de vosso trabalho,
companheiro.

Ora, coveiro, poeta do verso da poesia,
não penseis que aqui estou para lamentar-me.
Apenas quero contar-vos a estória
por trás desta glória sepulcral.

Foi numa sístole, breve e comum,
não numa extrassístole – aquelas bolinhas de sabão
que me estouravam no peito – mas numa sístole
simples, comum e breve, que meu coração calou-se,
súbito, sem motivo mas com alguma razão,
para não mais contrair-se.
Por todo meu corpo jorrou o derradeiro sopro
de vida que não tardou a transformar-se
no frio mais gélido que qualquer corpo,
deste mundo ou do outro, poderia sentir.
Assustei-me, confesso. Pois pensei
se tratar do tédio e seu regresso.
Desejei estar morto.
E morto estava.
Porém era apenas a morte se apoderando
do que sempre fora seu por dever e direito;
a vida: poesia.

Sei que não vos espantais com o que digo,
poeta contíguo, como coveiro que sois
bem sabeis que a morte é muito menos
que um minuto tedioso.

Libertei-me da inveja, do amor,
do ódio e da espera pela morte.
Já não amo a mulher que amava
e por quem me entediava:
morria.

Hoje morro de escrever poemas.
E os declamo para esta terra,
não a que vós pisais e jogastes soberano
sobre mim, mas a que me cobre
com aplausos de flor e minhocas.
Já não há vida a impedir-me o verso
nem apostasia capaz de ressuscitar-me
deste leito eterno de poesia.

Vistes que não me lamentei da sorte,
coveiro, poeta do soneto de sete palmos,
como vos disse que não faria,
apenas confessei-vos esta glória
de ser agora poeta pleno
de vida e de morte.

7 comentários:

  1. Muito bom o poema...queria eu ter talento de escrever um simples poema...nem isso consigo kkk.

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  2. Muito legal receber um comentário desses tão... estimulante! '--

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  3. isso aeee
    agora faz um sobre a sombra!!

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  4. Pelas sempre belas palavras e pela magnífica forma de escrever... Deixei um selo pra vc no meu blog...

    Beijos

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  5. muito bom, meio morbido, mas bom ;**

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  6. muito bom o texto... escreve muito bem

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